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Desilusão

Todo pensamento carrega uma quantidade de sentimento e, dependendo da hora ou da forma como é expresso, possui um significado específico.

Entre tantos sentimentos humanos, a desilusão tem um ranço negativo, sempre ligado ao sofrimento, perda, inércia, impotência, a decepção de uma experiência esperada. É o momento em que se é consumido pela insatisfação, pela dor e pela revolta. A desilusão é o quase, quase foi possível.

Desilusão, na prática, diz que não há ilusão, mas até onde isso é negativo?

Projetar-se em uma situação risco-ilusório sem saber em profundidade é iludir–se, portanto, na prática, a desilusão é descobrir-se que se iludiu, não teve a temperança de analisar as consequências e o distanciamento do ideal e o do real, não era verdadeiro seu investimento.

Deparar-se com a verdade, reconhecer-se em erro, não é uma tarefa fácil, mas até quando se está disposto a investir nessa ilusão, fugir da realidade, ou alimentar a desilusão por falta de critério sólido de vida? Negar o sonho de vida seria negar a própria vida. Mas o quanto se deve investir na ilusão e desilusão?

Talvez sejamos incapazes de viver sem ilusão. No entanto, à medida que amadurecemos, nos tornamos mais sábios, menos sujeitos à desilusão, porque as ilusões que criamos são mais exequíveis, já não condicionamos à vida às nossas necessidades neuróticas, de a tudo acertar, de a tudo conseguir, como bem lembrou Oscar Wilde:

“A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre “

Desilusão no amor

Quando se trata de amor, é mais perverso, pois queremos ser amados, porém, não nos amamos, tampouco ao outro na mesma intensidade. Queremos ser compreendidos sem se dar o trabalho de compreender o próximo. Quando somos abandonados, queremos que alguém venha preencher esse espaço, pois não suportamos viver conosco mesmo, não suportamos o vazio, a ausência, a falência e sentimo-nos vítimas da sorte.

E, na vida, isso torna-se uma constante auto alimentadora. Voltamos a iludir-nos pensando que vai durar… até que sofremos novamente uma desilusão, o que se repetirá em breve… para em breve nos desiludirmo-nos novamente, mas precisamos sempre acreditar para poder continuar vivendo…

Devemos contestar veemente a vida morna, amorfa, de frouxidão, indiferença; reflete a covardia e a falta de coragem de enfrentar a vida de ser feliz. Se a paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai, a covardia mata.

Não somos feitos para sentir o nada, pois, se não aflige, tampouco ilumina, não inspira, não deseja, não se arrisca, não vive. Sempre será importante a presença de um profissional de psicologia para ajudar a alcançar a estrutura a fim de enfrentar a desilusão que, por certo, deve e vai nos acontecer pela vida afora.

 

Armando Bueno de Camargo

Psicólogo Clínico

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